sábado, 26 de novembro de 2011

Da terceira pessoa

Caríssimo, venho oferecer-te minhas palavras destinadas à um tímido diário pertencente à uma doce quinze anos que tu conheces como ninguém; a menina que costuma escrever-te, lembra-te dela? Pois bem, trago notícias. Lamenta-se não ter te escrito estas semanas, mas é que passou tão rápido! Eu compreendo a menina. Ela viu estas semanas deslizarem com amargura pelas noites que passavam assustadoramente rápido em frente aos teus olhinhos de castanha portuguesa, embora os dias fossem insuportavelmente longos. Num dia desta bendita semana, ela segurava teus olhos mantendo-os devidamente fechados apenas para não ter que enfrentar a luz, tudo isso por medo. E por preguiça do sol. Mas o dia sempre a assustou - e creio que isso nunca lhe foi contado -, desde pequenina ela desejava que o relógio parasse e a terra retornasse há umas horas antes, apenas para não dar boas vindas àquela maldita luz.
- Menina, tu não gosta do dia?! É tão bom! E o corpo precisa senti-lo.
Mas teu corpinho que outrora foi miúdo nunca relaxou no dia. Na noite sim, ela sorria alegremente pra lua e permitia-se relaxar e descansar. De dia não. O dia era o monstro. Quando a hora de “acordar” aproximava já lhe batia o desespero.
Ela tinha medo dessas coisas que ficam na luz, sabe? Essas pessoas em suas rotinas. Ela era obrigada a conviver com toda essa gente que não se preocupa com nada além de todo esse dinheiro, todas egoitas. Ela escutava pensamentos vindo da mente de cada um, ou pensava que escutava, afinal o medo faz tantas coisas. Às vezes ia para a escola com nós na garganta, pobrezinha. Era uma menina tão triste que me dá pena. Andava sempre beirando a solidão.
Mas voltando aos dias atuais ela é uma mulher com sentimentos bons. Sentimentos que não ouso escrever por medo de perde-los nessas palavras. E é por essas coisas que tua alma de canais abertos anda tão inquieta, e é por causa desses canais abertos que ela, agora, tenta manter-se desligada do claro.
Desculpe por ter sido tão breve, mas são apenas estas novidades que te trago. Ultimamente ela anda sem ter o que escrever; tem abraçado fortemente as palavras soltas no ar quando entra em devaneios constantes, depois as liberta como um passarinho que aprende a voar e que acaba por cair, mas se levanta desajeitado. Confesso-te que essa menina anda tão fria e pensativa que me corta alma; e me corrói, só que em silêncio. As noites têm sido tão enfadonhas quanto ela e os dias uma monstruosidade. Mas me dá muito gosto e me regozijo quando a vejo se aventurando nas palavras, tentando aprender a escrever ingenuamente com seus professores: os livros. É tão dócil. Só que não fique preocupado com essas últimas palavras, saiba que antes de tudo a menina é bipolar: numa hora sorri e em outra chora. Mas ela é assim, deixe-a ser assim. Eu não quero que esse brilho de sonhadora nos olhos dela se apague, pois são esses olhos que me resgatam pra vida. Sempre. Esses olhos cor-de-cochonilha que não se deixa mostrar, sempre tão escondidos e tão entregue aos mistérios, idealizando seus sonhos... Mas deixe ela, deixe. Porque seu mundo interior costuma ser sempre tão vasto.

Um comentário:

  1. nice, agora me dá um capuccino duplo ai, vamos beber e conversar, dai algum tempo tu vai voltar a escrever sobre suas memorias suicidas...

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