Minha falta de seriedade, minha voz rouca ao acordar, meus joelhos que estalam a qualquer movimento, minhas mãos geladas, meu cabelo cor de chocolate, meus cilios grandes, minhas bochechas de maça, meu fascínio por café e coisas antigas, minha adoração por livros, meu gosto para músicas, minha paixão por rock, minha inadequação a própria época em que vivo, meus excessos.
Quase todas as noites choro todo o meu desespero sentada no banheiro, abraçada as minhas próprias pernas, com a testa encostada nos joelhos. Por vezes as lágrimas não vem e então fecho os olhos e sonho. Devaneios tolos. Futura fotógrafa e estilista, com minha loja de fotos e textos emoldurados pendurados nas paredes, escritora. Um estúdio fotográfico, designer gráfica. Inglês, Húngaro, Francês, Alemão. Minhas tatuagens, meus livros, cd’s e vinis, largas risadas e uma família, a família que escolhi para mim, todos a minha volta com seus próprios sonhos realizados, altruísmo.
A pressão dos joelhos traz marcas rosadas, como as de minhas bochechas, em minha pele . "Minha boneca de porcelana", ouvi de minha mãe e senti-me amada. Uso os ossos magros e compridos de meus dedos para inutilmente desembaçar as vistas, afastar as lágrimas. Passo tanto tempo ali que não sei dizer ao certo em que momento a dor aparece, mas eu sorrio, pois é o único momento em que consigo esboçar um sorriso simpático e sociável, de boas vindas. Quando a bipolaridade grita e sente-se nojenta, egoísta e coisas do tipo, e bem piores. Uma tontura no crânio, o mundo escurece e em seguida fica branco, senti sangue escorrer do nariz, o que já era comum. Nessa altura já não há mais lágrimas, no seu lugar eram olhos vermelhos e maquiagem borrada, cabeça explodindo. Respirava ofegante e uma leveza crepitava como folha seca dentro de mim, uma cólera tênue, ardente. Meu íntimo, meus medos, minhas vergonhas, nessa hora todos pairavam sobre mim.
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